Alimentos que contém vitamina K interferem no funcionamento dos anticoagulantes

O que a pessoa que está tomando anticoagulante não pode comer?

Os alimentos que contém vitamina K interferem no funcionamento dos anticoagulantes como a varfarina (Marevan ® ou Coumadin ® ou Marfarin ®): essa é a primeira coisa que a pessoa precisa saber quando recebe uma receita do seu médico que contenha esse tipo de medicamento. Além dos alimentos, muitos medicamentos de uso corriqueiro como antibióticos, antidepressivos, analgésicos, antiinflamatórios e diuréticos também interagem com a varfarina, levando a dificuldade de controle da medicação.

Por que a pessoa necessita tomar medicamentos anticoagulantes?

Quando a pessoa tem uma trombose, arritmia no coração, AVC ou ainda quando tem uma prótese no lugar da válvula do coração, ela necessitará de um medicamento anticoagulante para evitar a formação de coágulos no sangue.

Os coágulos se formam por vários motivos, porém, todos as causas levam a ativação do mesmo mecanismo: a cascata da coagulação. A cascata da coagulação, em termos práticos, é uma série de reações químicas que ocorrem no nosso sangue que tem por objetivo a formação de um coágulo. Isso é muito útil quando temos algum dano aos vasos sanguíneos, como no caso de ferimentos, cirurgias, fraturas etc. , evitando hemorragias e até a morte. Porém, quando esta cascata é acionada de forma mais intensa do que o necessário, pode acontecer a formação de um coágulo que entope um vaso sanguíneo, seja este uma artéria ou uma veia.

Essas reações químicas da cascata da coagulação são mediadas por enzimas chamadas “fatores da coagulação“.

Como funcionam os anticoagulantes derivados da varfarina?

A varfarina é um medicamento anticoagulante amplamente utilizado em pessoas que necessitam “afinar o sangue” ou seja, evitar que os coágulos se formem.

Ela foi descoberta por um pesquisador americano chamado Karl Paul Link. Ele trabalhava em um laboratório na Universidade de Winsconsin no norte dos EUA. Um dia, um fazendeiro consultou o pesquisador a respeito de uma doença que estava matando suas vacas por hemorragias, a doença do trevo doce (sweet clover disease). Link estudou a doença e constatou que o quadro era causado pela ingestão de uma planta que crescia nos pastos. E, utilizando o sangue de uma das vacas mortas nos pastos de Ed Carson, conseguiu sintetizar uma molécula chamada 3,3′-methylenebis-(4 hydroxycoumarin) ou dicoumarol.

 

A molécula foi patenteada em 1945 pelo Wisconsin Alumni Research Foundation, WARF (daí o nome: Warfarina), em meados da década de 1950, a substância começou a ser utilizada como medicamento.

O que Dr. Link não sabia, e que foi descoberto depois, é que a varfarina era na realidade uma substância que inibia a ativação da vitamina k no organismo, essencial para a produção de diversos fatores da coagulação. Sem ela, não há coagulação eficaz e, portanto, qualquer pequeno sangramento pode virar uma grande hemorragia.

Sendo assim, a quantidade de vitamina K existente no organismo, interfere diretamente na ação da varfarina: quanto mais vitamina K, menor a ação da varfarina e maior a tendência do sangue em coagular. O contrário é verdadeiro: quanto menos vitamina K, maior a ação da varfarina e menor será a formação dos coágulos no sangue.

Por causa disso, a alimentação é muito importante para quem está tomando este anticoagulante! O excesso de alimentos com vitamina K podem interferir na ação do medicamento, diminuindo sua potência.

A varfarina está contida nos seguintes medicamentos que são comecializados no Brasil: Marevan ® (Farmoquímica), Coumadin ® (Bristol-Myers Squibb), Marfarin ® (Teuto) e Varfarina Sódica genérica (União química e Teuto).

Quais alimentos interferem na ação dos anticoagulantes que contém varfarina?

A resposta é simples: os alimentos que contenham grande quantidade de vitamina K.

A regra para decorar é a seguinte: tudo o que é verde, tem vitamina K. Portanto: brócolis, couve, alface, almeirão, rúcula, espinafre, repolho, agrião, couve flor, salsinha, cebolinha, alecrim, manjericão e outras hortaliças verdes são ricas nessa vitamina. Além disso, o chá verde, o chá preto (mate), o pepino com casca, o pimentão, a azeitona, os óleos como o de soja e canola, azeite de oliva, gema do ovo, castanhas e nozes, pistache, ervilha, lentilha, grão de bico, algas marinhas (como aquela que tem em volta do sushi) e o fígado do boi do porco e de aves, contém grande quantidade de vitamina K. Abaixo, temos uma tabela com a quantidade de vitamina K para cada alimento:

 

Você deve estar se perguntando: se eu estou tomando varfarina eu preciso parar de comer esses alimentos?

E a resposta é: depende.

Depende porque a dose da medicação é sempre ajustada com um exame de coagulograma, através de um parâmetro chamado Tempo de Protrombina (TP) e seu índice internacional (INR ou RNI). O INR de uma paciente em anticoagulação deve ficar, idealmente, entre 2 e 3 (às vezes entre 2,5 e 3,5 dependendo do tipo de doença). Quanto mais anticoagulado está o paciente, maior esse índice, e consequentemente maior o risco de sangramento. Quanto menor o INR, menos anticogulado está o sangue, e maior a probabilidade de ser formar um coágulo e uma trombose.

O paciente que toma a varfarina deve fazer exames regulares para ajuste da dose da medicação, às vezes até uma vez por semana!

Sendo assim, se você come alimentos ricos em vitamina K todos os dias, a dose do seu medicamento vai ser ajustada para mais, porque a varfarina terá que inibir uma quantidade maior da vitamina. Se você nunca come alimentos com vitamina K ou os come em pequena quantidade também não há problema: o remédio é ajustado para menos.

O grande problema está na variação da dieta: se você come um monte de espinafre e brócolis na semana em que for colher o exame de sangue e seu INR estiver baixo, seu médico irá aumentar o remédio. Se, na semana seguinte, você resolve não comer mais nenhuma salada, a quantidade de vitamina K vai diminuir e consequentemente a dose do medicamento ficará muito alta, podendo ocasionar um sangramento.

E o sangramento pode ser grave, incluindo acidente vascular cerebral hemorrágico (derrame), vômitos e fezes com sangue e hemorragias internas, podendo ocasionar o óbito se não forem socorridos em tempo.

Sendo assim, fica a dica: se você toma varfarina, você vai ter que escolher: ou come os alimentos ricos em vitamina K todo santo dia, ou nunca come nada disso.

Por isso que muitos médicos preferem proibir estes alimentos: assim fica mais fácil de controlar a medicação. Isso é tranquilo se o paciente for tomar a medicação por 3 a 6 meses, mas não é tão fácil nos casos em que o medicamento será usado durante a vida inteira.

Para os usuários das medicações que contém varfarina, a recomendação alimentar é a seguinte:

> Evitar hortaliças verdes em grande quantidade.

> Utilizar a mínima quantidade possível de óleos e gorduras, como adição no preparo dos alimentos;

> Evitar o consumo de produtos industrializados à base de óleos, salsa ou ervas (molhos prontos, sopas de pacote, temperos concentrados em tabletes);

> Consumir alimentos conservados em salmoura ao invés da conservação em óleo (ex: atum em lata);

> Remover cascas de frutas e legumes, por possuírem maior concentração da vitamina K que a polpa;

> Utilizar, preferivelmente, queijos ou geleias nas pequenas refeições e lanches, ao invés de manteigas e margarinas;

> Evitar a substituição de refeições como almoço e jantar, por lanches e petiscos;

> Manter constante a ingestão diária de vitamina K, evitando grandes variações, pois os alimentos fonte dessa vitamina também são importantes para o controle de distúrbios metabólicos como as dislipidemias (colesterol alto) e a osteoporose.

Além dos alimentos, uma série de medicamentos também interferem na ação da varfarina. Na tabela abaixo temos um resumo dos principais medicamentos que têm interação com os anticoagulantes:

Nessa lista, estão diversos medicamentos que usamos corriqueiramente como antiinflamatórios (diclofenaco, meloxican, cetoprofeno, naproxeno), analgésicos (paracetamol, AAS), omeprazol, antidepressivos, diuréticos e antibióticos (eritromicina, metronidazol, bactrim, ciprofloxacino entre outros).

Sendo assim, é importante que o médico que está cuidado da sua anticoagulação saiba quando qualquer medicamento for utilizado ou deixar de ser utilizado pela pessoa que faz uso da varfarina.

Outro dado importante: o álcool interfere muito no metabolismo do medicamento, aumentando sua ação e consequentemente o risco de sangramento. É isso mesmo: beber bebidas alcóolica juntamente com a varfarina (marevan®, coumadin® etc) pode ocasionar hemorragias. Portanto, quem está tomando este tipo de medicação não pode beber álcool.

Outros remédios para coagulação como a rivaroxabana (Xarelto ®), dabigatrana (Pradaxa ®), edoxabana (Lixiana ®), apixabana (Eliquis ®), enoxaparina (Clexane ®, Versa ®), foundaparinoux (Arixtra ®) não possuem interação importante com alimentos, portanto não há restrição alimentar e nem dieta específica para as pessoas que os utilizam. Essa é uma vantagem importante desses remédios em relação à varfarina.

Resumo

O uso de medicamentos anticoagulantes que contém varfarina requer uma série de cuidados com a alimentação e com o uso concomitante com outros medicamentos e o álcool. Os alimentos ricos em vitamina K devem ter sua ingestão controlada para facilitar o ajuste da dose da medicação.

Se a dose da medicação estiver desajustada, corre-se o risco de haver um sangramento importante ou ainda uma nova trombose.

Converse com seu médico e solicite detalhes sobre os cuidados com a alimentação e o uso de medicações durante o tratamento anticoagulante. Não deixe de perguntar cada detalhe para que você não fique com dúvidas. Uma dose errada da medicação pode levar a óbito.

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